10 anos de Rede Amlat: uma experiência para além da academia

Émerson da Costa

Como nós pesquisadores bem sabemos, o trabalho científico exige rigor teórico e metodológico em cada mínimo detalhe da construção da pesquisa. Trabalhamos com temas importantes em nosso contexto, questões urgentes e cruciais para as transformações sociais que nossas sociedades necessitam para um futuro melhor e mais justo. É inegável, também, que este processo costuma ser solitário e exigir muito das pesquisadoras e dos pesquisadores, que demandam muitas horas do seu dia debruçados sobre leituras críticas, escrita de textos e demais funções endêmicas à investigação. A Rede Amlat, nos seus 10 anos de história, buscou construir em seu Seminário Internacional um lugar de compartilhamento de experiências fundamentado exatamente pelo extremo contrário da solidão: a confraternização.

Em 2019, XIII Seminário Internacional da Rede Amlat teve como sede a cidade de Boa Vista, capital de Roraima, estado localizado no extremo Norte do Brasil, na tríplice fronteira com Venezuela e Guiana. O evento – ocorrido entre os dias 21 e 25 de outubro – teve como eixo central o tema “Comunicação sem Fronteiras: pensamento crítico, fluxos migratórios e saberes amazônicos” e contou com 12 mesas temáticas, divididas em quatro dias de apresentações, correspondentes ao XIII Seminário de Metodologias Transformadoras e ao VII Encontro Estudantil da Rede. Nestes espaços, pesquisadores de diversos países da América Latina e também da Espanha puderam compartilhar saberes e vivências científicas, em um ambiente de debate e construção de conhecimento coletivo referente às seguintes temáticas: Epistemologias da Comunicação; Comunicação e Problematizações Discursivas; Cidadania Comunicativa e Direitos Humanos; Intervenção Social e Acessibilidade Comunicativa; Educomunicação; Diálogos Transdisciplinares; Fluxos Migratórios e Processos Comunicacionais; Comunicação e Poder; Comunicação, Educação e Identidades; Arte e Comunicação; Práticas Comunicacionais e Jornalísticas; Etnocomunicação e Saberes Amazônicos. Os pesquisadores presentes puderam acompanhar, também, quatro conferências principais com professores do Brasil, Argentina, Equador e Venezuela, além de dois eventos que ocorreram de forma paralela ao Seminário: o II Colóquio Amazônico de História da Mídia e o I Seminário de Pesquisa do PPGCOM – UFRR. A ajuda mútua e a participação de todos no trabalho de todos foram as principais dinâmicas da produtiva semana de atividades, que se estendeu para muito além das discussões acadêmicas.

Como é de praxe nos eventos da Rede, as vivências proporcionadas por Boa Vista e região foram tão importantes quanto os dias de trabalho árduo sob o teto do Auditório Alexandre Borges, na UFRR. A bela cidade é um verdadeiro caldeirão cultural formado por migrantes de diversas partes do país e dos países vizinhos, que pulsa à vista de quem visita o local pela primeira vez. A culinária regional cativa pelo sabor único das frutas, temperos e pescados. A vista do Rio Branco – imponente rio amazônico que costeia a cidade – impressiona, e navegar em suas águas é uma experiência difícil de descrever. O calor (e aqui falo do clima e das pessoas) é capaz de aquecer o coração do mais frio dos seres humanos. As exposições artísticas e feiras de artesanato local, tanto na universidade quanto em outros espaços da cidade, chamam a atenção pela criatividade e minúcia dos artistas.

Boa Vista também proporcionou vivências empíricas poderosas, capazes de afetar as estruturas dos mais desavisados e construir conhecimento pela experiência prática. Lá, pudemos conhecer a realidade da onda de migração venezuelana tão discutida (e tão pouco aprofundada) na mídia brasileira nos últimos meses, uma vez que Boa Vista é a cidade brasileira que mais recebeu migrantes do país vizinho até agora. Em um dos nossos dias livres, visitamos Lethen, cidade fronteiriça já no território da Guiana, e vimos com nossos próprios olhos os resultados de séculos de exploração colonial inglesa. No contexto do próprio evento, pudemos ouvir e aprender com pesquisadores indígenas, da tribo Wapichana, que gentilmente compartilharam sua sabedoria ancestral e sua cosmovisão de respeito à natureza e aos outros seres humanos. Foram aprendizados profundos, que deixaram marcas importantes na construção pessoal de cada um que pôde estar em Roraima participando do evento. Finalizamos a semana de vivências celebrando os 10 anos de Rede Amlat, confraternizando com muita música, dança e boas conversas, alimentando não só a mente com conhecimento, mas também a alma e o espírito com afetos e coletividade.

Viva a Rede Amlat!

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